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Satri-cel: a primeira terapia CAR-T aprovada para tumores sólidos inaugura uma nova era no tratamento do câncer gástrico

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    MartinLab
  • há 6 horas
  • 4 min de leitura

A oncologia mundial acaba de alcançar um marco histórico.  Foi aprovado na última semana pela Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) o uso comercial da primeira terapia CAR-T para o tratamento de um tumor sólido.


Denominado Satri-cel (CT041, Kaileimei®), o produto patenteado pela empresa CARsgen Therapeutics é composto por células CAR-T produzidas com vetores lentivirais com alvo na isoforma 2 da proteínas Claudina 18.


Com sua aprovação, o Satri-cel passa a ser indicado para pacientes com câncer gástrico avançado e adenocarcinoma da junção gastroesofágica Claudina 18.2 (CLDN18.2) positivos e HER2-negativos que tenham apresentado progressão da doença após pelo menos duas linhas anteriores de tratamento.


Mais do que a aprovação de um novo medicamento, esse acontecimento marca a consolidação de uma estratégia que durante décadas foi considerada um dos maiores desafios da imunoterapia: fazer com que as células CAR-T funcionem de forma eficaz contra tumores sólidos.2


O que é a Claudina 18.2 e por que ela é importante?


O diferencial do Satri-cel começa pelo alvo escolhido. A Claudina 18.2 (CLDN18.2) é uma proteína pertencente à família das claudinas, componentes essenciais das chamadas tight junctions, que mantêm a coesão entre as células epiteliais. Em condições normais, as moléculas de Claudina 18.2 são apresentadas apenas nas tight junctions, permanecendo pouco acessíveis ao sistema imunológico.


No entanto, durante o desenvolvimento de determinados tumores, especialmente os cânceres gástricos e da junção gastroesofágica, a arquitetura celular é alterada e as moléculas de Claudina 18.2 tornam-se expostas na superfície das células malignas. Essa característica transforma a proteína em um alvo específico para tumores e confere segurança frente e a efeitos On target-off tumor.


Quanto a sua taxa de positividade em pacientes, estudos mostram que a CLDN18.2 está presente em aproximadamente 30% a 40% dos casos de câncer gástrico avançado, além de ser encontrada em alguns tumores pancreáticos, esofágicos e outros cânceres do trato gastrointestinal.


Resultados clínicos que levaram à aprovação


A aprovação do Satri-cel foi baseada em estudos clínicos que demonstraram benefícios importantes para pacientes previamente tratados e com opções terapêuticas limitadas.

No estudo pivotal que sustentou a aprovação regulatória:


- 41% dos pacientes apresentaram redução mensurável do tumor;

- No grupo tratado com terapias convencionais, essa taxa foi de apenas 4%;

- Houve melhora significativa no controle da doença;

- A terapia prolongou a sobrevida global mediana em aproximadamente seis meses;

- O perfil de segurança foi considerado manejável.


Os resultados foram reforçados por um estudo de Fase 2 apresentado durante o Congresso Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2024.


Nesse estudo, o Satri-cel foi comparado com tratamentos quimioterápicos escolhidos pelos médicos investigadores. Os resultados demonstraram:


- Sobrevida livre de progressão (PFS) mediana de 3,25 meses versus 1,77 meses no grupo controle;

- Sobrevida global mediana de 7,92 meses versus 5,49 meses no grupo controle.


Os dados positivos aceleraram o processo regulatório e consolidaram o potencial clínico da terapia.


Acesso ao tratamento e pacientes internacionais


O Jiahui International Cancer Center (JICC), localizado em Xangai, anunciou que está preparado para receber pacientes elegíveis da China e de outros países interessados em acessar essa inovação terapêutica.


Reconhecido como um dos principais centros oncológicos privados do país, o JICC conta com uma estrutura multidisciplinar dedicada ao tratamento do câncer e oferece suporte especializado para pacientes internacionais durante todas as etapas do processo assistencial.


Expectativas para o lançamento


Segundo a CARsgen Therapeutics, os primeiros pacientes deverão receber o tratamento poucas semanas após a aprovação regulatória.

A empresa informou que já possui pacientes aguardando o início da terapia e projeta aproximadamente 200 pedidos para o Satri-cel durante o segundo semestre de 2026.


Um novo capítulo na imunoterapia


A aprovação do Satri-cel representa um divisor de águas na história da oncologia. Durante anos, a comunidade científica buscou maneiras de adaptar a tecnologia CAR-T para o tratamento de tumores sólidos, mas enfrentou limitações relacionadas à identificação de alvos específicos e às barreiras impostas pelo microambiente tumoral.


Com a validação clínica da abordagem anti-CLDN18.2, abre-se uma nova fronteira para a medicina de precisão e para o desenvolvimento de terapias celulares direcionadas a outros tipos de câncer.


Embora ainda existam desafios e novas evidências sejam necessárias para expandir seu uso, o Satri-cel demonstra que a era das terapias CAR-T para tumores sólidos deixou de ser uma promessa e passou a fazer parte da realidade clínica.


Pesquisas envolvendo CAR-T anti-Claudina 18.2 no Brasil


Sob a coordenação do Dr. Martín Bonamino, no Instituto Nacional de Câncer (INCA), o doutorando João Vitor Steimbach vem desenvolvendo, há aproximadamente dois anos, células CAR-T anti-Claudina 18.2 baseadas no produto experimental CT041, que posteriormente deu origem ao produto comercial Satri-cel. Essas células são produzidas por meio de vetores não virais, utilizando transposases e ribonucleoproteínas para promover a integração do transgene de forma semi-randômica ou sítio-específica em loci imunologicamente relevantes, como o gene PDCD1.


Os resultados mais recentes do projeto demonstram atividade antitumoral in vitro contra linhagens celulares de câncer gástrico. Com base nesses achados, os pesquisadores avançam agora para estudos in vivo utilizando modelos de camundongos imunodeficientes.


O principal objetivo do grupo é desenvolver uma estratégia de produção mais econômica para essas células CAR-T, tornando essa abordagem terapêutica mais acessível a pacientes de países em desenvolvimento, como o Brasil. No longo prazo, a expectativa é viabilizar a oferta desse tratamento a pacientes elegíveis no contexto do Sistema Único de Saúde.




Referências



JIANG, H.; SHI, Z.; WANG, P. et al. Claudin18.2-specific chimeric antigen receptor engineered T cells for the treatment of gastric cancer. JNCI: Journal of the National Cancer Institute, Oxford, v. 111, n. 4, p. 409–418, abr. 2019.


QI, C.; LIU, C.; PENG, Z. et al. Claudin-18 isoform 2-specific CAR T-cell therapy (satri-cel) versus treatment of physician's choice for previously treated advanced gastric or gastro-oesophageal junction cancer (CT041-ST-01): a randomised, open-label, phase 2 trial. The Lancet, Londres, v. 405, p. 2049–2060, 2025.


 
 
 

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