• Mariana Viegas

Subconjunto distinto de células B surge em tumores após a quimioterapia

O sistema imune é dinâmico, evoluindo e se modificando no microambiente tumoral ao longo da progressão do câncer (Galluzzi, L., et al.). Quando exposto a interversões terapêuticas, a modulação do sistema imunológico evolui profundamente dando origem a subconjuntos de células com diversas propriedades (Liu, X., et al. e Lu, Y., et al.). A maior compreensão dessa modulação nos leva a abordagens combinatórias usando a estratégia de imunoterapia para aumentar a eficácia de vários tratamentos antitumorais convencionais.

As células B constituem um grande conjunto de células imunológicas que tem um papel importante na imunidade humoral, produzindo anticorpos contra antígenos. As células B também apresentam um papel na progressão do tumor através de imunocomplexos formados a partir de imunoglobulinas (Affara, N. I., et al.), da produção de citocinas (Ammirante, M., et al.) e da expressão de moléculas conhecidas como checkpoints imunológicos (Shalapour, S., et al.). Outros estudos demonstraram resultados conflitantes com os mencionados anteriormente, em que a depleção de células B após o tratamento com rituximabe (anti-CD20) pode diminuir a eficiência da imunidade antitumoral (Aklilu, M., et al. e Joly-Battaglini A., et al.). Outro trabalho demonstrou uma relação de feedback positivo entre a densidade de células B que promovem o aumento de células Th1, levando a uma associação com melhor desfecho de sobrevida dos pacientes (Hennequin, A., et al. e Zhu, W., et al.). Esses dados sugerem que as células B podem exercer papeis diferentes tanto pro-tumorais quanto anti-tumorais.

Yiwen Lu e colaboradores exploraram as subpopulações de células B infiltrantes de tumor de amostras de pacientes com câncer de mama pré e pós quimioterapia neoadjuvante. Os autores identificaram um novo subconjunto de células B ICOSL+ com propriedades antitumorais através de um perfil de RNA single-cell que surge no câncer de mama após a quimioterapia. Essa subpopulação de células B foi associada com uma melhor resposta da quimioterapia e prognostico do paciente. Também foi demonstrado que a proteína ICOSL em células B afeta a imunidade antitumoral, levando a uma resposta imune ideal e melhorando a eficácia da quimioterapia.

Os autores demonstraram que o receptor CR2 do sistema complemento está aumentado nas células B ICOSL+. O CR2 reconhece produtos de clivagem do complemento C3 ligados a antígenos que atuam em conjunto com o receptor de células B (BCR), o que gera uma resposta aumentada das células B ao antígeno. Também foi demonstrado que a morte de células tumorais por efeito da quimioterapia leva à ativação do sistema complemento, que é responsável por induzir o subconjunto de células B ICOSL+ via CR2. A ativação do sistema complemento e o surgimento de células B ICOSL+ leva a um aumento da imunidade antitumoral Th1 e da citotoxicidade de células T CD8+ intratumorais.

Os autores realizaram sequenciamento de RNA em células tumorais e observaram alteração da proteína CD55. CD55 é uma proteína que regula o sistema complemento na superfície da célula, reconhecendo fragmentos de C3 ou C4 durante a ativação. Linhagens de células de câncer de mama que apresentaram baixa expressão de CD55 foram capazes de induzir células B ICOSL+. Porém, as linhagens que apresentaram alta expressão de CD55 não foram capazes de induzir células B ICOSL+. Esse estudo revela a proteína CD55 como um promissor alvo terapêutico.

Em suma, esse trabalho completo explorou as alterações que ocorrem no microambiente tumoral após a quimioterapia neoadjuvante. A quimioterapia apresenta um papel na ativação do sistema complemento, que revelou ser importante para a imunidade antitumoral dependente de células B. O estudo também demonstra a plasticidade de células B, com o surgimento de um subconjunto de células B ICOSL+ com propriedades antitumorais. Essa subpopulação é induzida pela ativação do sistema complemento e em tumores com baixa expressão de CD55. A eliminação de células tumorais CD55+ pode ser capaz de induzir células B ICOSL+ e aumentar a eficácia da quimioterapia. Portanto, a proteína CD55 que aparece alterada em alguns tumores é proposta como alvo terapêutico a ser combinada com a quimioterapia.

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