• Eduardo Mannarino

Nanovacina viral artificialmente camuflada para imunoterapia do câncer

- Por Eduardo Mannarino -


Ao longo dos anos o campo da imunoterapia tem sido promissor, demonstrando novas formas de tratamentos mais eficazes e específicos (BAUDINO, 2015). Dentro desta linha terapêutica, há um destaque para o uso de vírus oncolíticos, os quais são projetados para se replicarem apenas em células cancerosas, teoricamente não ocasionando dano nas células saudáveis. Em decorrência da multiplicação viral, há a lise das células tumorais, liberando antígenos que podem desencadear uma resposta antitumoral específica e a produção de novas partículas virais. Estas novas partículas, por sua vez, podem infectar outras células neoplásicas e levar à desestabilização do microambiente tumoral, promovendo um perfil pró-inflamatório local (RAJA et al., 2018).


Entretanto, a inoculação do vírus oncolítico apenas desencadeia uma resposta anti-viral, não antitumoral. Além disso, nem sempre os antígenos liberados em decorrência da lise celular vão fazer um estímulo correto do sistema imunológico, ocasionando eventualmente um processo chamado de tolerância tumoral pelo sistema imunológico. Para evitar essas condições, foi utilizada a estratégia de colocar peptídeos provenientes do tumor ligados ao vírus (CAPASSO et al., 2016). Apesar de ser uma ideia promissora, é muito difícil definir quais os peptídeos corretos para serem utilizados que teriam a capacidade de fazer a estimulação funcional do sistema imunológico a fim de desencadear a resposta antitumoral, além de ser um processo considerado dispendioso.


Dessa forma, o trabalho de Fusciello e colaboradores se propôs a desenvolver uma nova tecnologia utilizando vírus oncolíticos. Revestindo um adenovírus oncolítico com a membrana de células tumorais já bem caracterizadas, sem escolher peptídeos específicos, através de um processo de extrusão, os autores criaram uma nano partícula viral (adenovírus com replicação condicional extra, abreviadamente do inglês ExtraCRAd). Esta nova tecnologia foi então avaliada pelos autores tanto como uma abordagem de tratamento quanto vacinal.


Figura 1. Esquema do design experimental geral adaptado do texto base (FUSCIELLO, 2019).


Inicialmente os autores determinaram o tamanho da partícula, de aproximadamente 117.7 nanômetros (nm), caracterizando uma partícula viral encapsulada por uma membrana de 10 nm derivada da célula cancerígena. Ao ser realizado um estudo de proteômica entre o vírus, membrana e o ExtraCRAd, notou-se que a membrana tumoral original e o ExtraCRAd compartilham 125 proteínas, dentre as quais foram evidenciados os antígenos necessários para desencadear a resposta antitumoral específica pelo sistema imunológico.


Seguindo os testes in vitro, mostrou-se que o ExtraCRAd conseguia fazer a adsorção nas células de forma independente do receptor utilizado pelo vírus, através de uma mecanismo ativo de endocitose, sendo observada a redução da viabilidade de dois diferentes tipos de linhagens de células cancerígenas, uma tendo maior expressão do receptor utilizado pelo vírus (a linhagem A549) e outra menor expressão (linhagem SKOV-3).


Ademais, um dos problemas de se utilizar os vírus sem a camada lipídica é a neutralização das partículas virais pelos anticorpos. Portanto, o grupo realizou um experimento no qual observou que a membrana proveniente da célula cancerígena era capaz de proteger o vírus dessa neutralização, tanto a promovida por anticorpos provenientes de camundongos imunizados quanto a derivada de anticorpos comerciais contra o adenovírus. Isso poderia implicar em uma nova forma de administração dos vetores virais, podendo utilizar a via intravenosa e não necessariamente intratumoral. Este aspecto permitiria ao vírus inclusive estimular o sistema imune em sítios extra-tumorais, o que pode promover uma resposta mais eficaz contra o tumor.


Passando para os testes in vivo, o grupo demonstrou a capacidade do ExtraCRAd retardar o crescimento do tumor de três linhagens diferentes, sendo duas linhagens de melanoma (B16OVA e B16F10) e uma de pulmão (LL/2). Os autores demonstraram um aumento das células dendríticas e um perfil de linfócitos T (LT) CD8+ com uma resposta específica para o tumor nos animais com as linhagens B16OVA e B16F10. Já para o LL/2, não houve aumento de células dendríticas e nem macrófagos, tendo sido notado apenas o aumento das populações LT CD4+ e CD8+ infiltrando no tumor.


O grupo discute que isso indicaria que o ExtraCRAd é capaz de gerar uma resposta imunológica tanto abrangente quanto local. Isso porque o ExtraCRAd teria a capacidade tanto de prover os antígenos quanto os sinais imunoestimuladores para ocorrer uma ativação adequada dos LT.


Ao final, o grupo testou a capacidade de essa nova tecnologia do ExtraCRAd funcionar como uma abordagem vacinal com as linhagens CMT64.OVA e B16F10. Os autores viram um aumento na sobrevivência dos grupos tratados com o ExtraCRAd homólogo, ou seja, nos quais a membrana utilizada para a construção é derivada da mesma linhagem celular utilizada para estabelecer o tumor nos camundongos. Além disso, o ExtraCRAd foi capaz de diminuir a velocidade do crescimento tumoral para ambos os modelos. No modelo de B16F10, no entanto, foi notado um controle parcial de crescimento dos tumores por parte de todos os tratamentos feitos quando comparados ao mock.


Assim, o trabalho propõe um aprimoramento na imunoterapia utilizando vírus oncolítico com resultados satisfatórios, tanto para uma abordagem terapêutica quanto para uma abordagem vacinal. Deve-se aguardar os novos testes desta abordagem inovadora em outros modelos tumorais e sua posterior avaliação clínica para que possamos avaliar a real aplicabilidade desta abordagem nos pacientes oncológicos.



Texto base

FUSCIELLO, M. et al. Artificially cloaked viral nanovaccine for cancer immunotherapy.

Nature Communications, v. 10, n. 1, p. 1–13, 2019.


Referências

BAUDINO, T. A. Targeted Cancer Therapy: The Next Generation of Cancer Treatment.

Current Drug Discovery Technologies, v. 12, p. 3–20, 2015.

CAPASSO, C. et al. Oncolytic adenoviruses coated with MHC-I tumor epitopes increase

the antitumor immunity and efficacy against melanoma. OncoImmunology, v. 5, n. 4, p.

1–11, 2016.

RAJA, J. et al. Oncolytic virus immunotherapy: future prospects for oncology. Journal for

ImmunoTherapy of Cancer, v. 6, n. 1, p. 1–13, 2018.

51 visualizações

Apoio Financeiro:

Instituto Nacional do Câncer (INCA)

Rio de Janeiro - RJ

Brasil

2020